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Numa corrida com catorze cavalos em Cheltenham, coloquei dez euros num outsider a odds de 20.00 — uma aposta Win pura. O cavalo terminou em terceiro. Zero de retorno. Se tivesse feito uma aposta Each-Way, com exatamente a mesma convicção e o mesmo cavalo, teria recebido um pagamento pelo lugar. Essa diferença entre sair de mãos vazias e sair com lucro é o que torna o Each-Way uma das ferramentas mais subestimadas nas corridas de cavalos.
Cerca de 18% de todas as apostas em corridas de cavalos a nível mundial são Each-Way, e 41% dos apostadores experientes dedicam parte do seu portfólio a este formato. Os números não mentem — não se trata de uma aposta de principiante, mas de um instrumento que os profissionais utilizam com critério.
Ao longo de nove anos a analisar mercados hípicos, aprendi que o Each-Way não é simplesmente “apostar no lugar”. É uma estratégia dupla que, quando aplicada nas circunstâncias certas, altera completamente o perfil de risco de uma sessão de apostas. Vou explicar exatamente como funciona, com números reais e cenários concretos.
Como Funciona a Aposta Each-Way
Há uns anos, um amigo perguntou-me: “Se o Each-Way são duas apostas, por que não faço simplesmente uma aposta Win e uma aposta Place separadas?” A resposta revela tudo sobre a mecânica deste mercado.
Uma aposta Each-Way divide-se em duas partes iguais: a parte Win e a parte Place. Quando aposta dez euros Each-Way, está na realidade a investir vinte euros — dez na vitória e dez no lugar. Se o cavalo vencer, recebe o pagamento das duas partes. Se o cavalo terminar nas posições de lugar (mas não vencer), recebe apenas o pagamento da parte Place. Se o cavalo terminar fora das posições pagas, perde os vinte euros.
A parte Place paga uma fração das odds originais. Essa fração depende do número de participantes e do tipo de corrida. Em corridas com cinco a sete cavalos, os operadores pagam normalmente os dois primeiros lugares a 1/4 das odds. Em corridas com oito ou mais cavalos, os três primeiros lugares a 1/5 das odds. Nos handicaps com dezasseis ou mais participantes, alguns operadores estendem o pagamento aos quatro primeiros a 1/4 das odds.
A diferença crucial face a apostar Win e Place separadamente é que o Place em separado tem odds próprias, calculadas pelo bookmaker — e essas odds são quase sempre menos favoráveis do que a fração Each-Way. O Each-Way é, na prática, um pacote com termos fixos vinculados às odds Win.
Em corridas com quatro cavalos ou menos, a maioria dos operadores não oferece Each-Way de todo. É o primeiro sinal de que este mercado está desenhado para campos com dimensão suficiente para justificar probabilidades razoáveis de lugar.
Calcular o Retorno de Uma Aposta Each-Way
Vou usar um exemplo que repito em quase todas as minhas análises, porque ilustra o conceito de forma cristalina. Imaginemos uma corrida com doze cavalos. O cavalo que selecionámos tem odds de 10.00 (9/1 em formato fracionário). Apostamos cinco euros Each-Way — investimento total de dez euros.
Se o cavalo vence, o cálculo é direto. A parte Win paga 5 x 10.00 = 50 euros. A parte Place paga a fração das odds — neste caso, 1/5 das odds. A fração aplica-se sobre a parte das odds acima de 1.00, ou seja: (10.00 – 1.00) / 5 + 1.00 = 2.80. A parte Place paga 5 x 2.80 = 14 euros. Total recebido: 64 euros. Lucro líquido: 54 euros.
Se o cavalo termina em segundo ou terceiro (dentro dos lugares pagos), a parte Win perde-se. Recebemos apenas os 14 euros da parte Place. Investimos dez euros, recebemos catorze — lucro de quatro euros. Não é espetacular, mas é positivo.
Agora, e se as odds fossem 4.00 em vez de 10.00? A parte Place pagaria (4.00 – 1.00) / 5 + 1.00 = 1.60. Cinco euros a 1.60 = 8 euros. Investimento total de dez euros, retorno de oito — perda de dois euros mesmo com o cavalo a terminar no lugar. Este é o ponto que muitos apostadores ignoram: em odds baixas, o Each-Way pode resultar em prejuízo mesmo quando o cavalo termina nas posições pagas.
O Win Bet representa 28% do volume total de apostas em corridas a nível global, e 62% dos iniciantes escolhem este formato pela sua simplicidade. A transição para o Each-Way só faz sentido quando o apostador já compreende estas mecânicas de cálculo e consegue identificar cenários onde o retorno da parte Place compensa o investimento adicional.
Quando Usar e Quando Evitar o Each-Way
Na temporada de 2024 do National Hunt, testei uma abordagem que mudou a minha perspetiva sobre o Each-Way. Durante três meses, apliquei-o exclusivamente em corridas com doze ou mais participantes e odds mínimas de 8.00. O resultado foi consistentemente positivo, não por acertar mais vencedores, mas por acumular retornos de Place que cobriam as perdas das apostas falhadas.
A regra que utilizo é simples. O Each-Way funciona melhor quando três condições se alinham: campo numeroso (dez cavalos ou mais, idealmente catorze ou mais para handicaps com quatro lugares pagos), odds de pelo menos 6.00 (abaixo disso, o retorno Place raramente compensa o investimento duplo) e corrida com final aberto, sem um favorito dominante que comprima as odds dos restantes.
Evito o Each-Way em corridas de cinco ou seis cavalos — a fração Place é baixa (1/4) e as posições pagas são apenas duas, o que reduz drasticamente a probabilidade de retorno. Também o evito em cavalos com odds curtas como favoritos a 2.50 ou 3.00 — um Each-Way nesses cenários é quase sempre uma aposta Win disfarçada com custo duplicado.
Existe um cenário particularmente interessante que muitos ignoram: os non-runner money back. Se um favorito é retirado antes da corrida e as odds dos restantes são recalculadas através da Regra 4, os termos Each-Way permanecem nos valores originais. Isso pode criar situações onde a fração Place se torna desproporcionalmente generosa face às odds ajustadas — uma ineficiência que os apostadores atentos exploram.
Outra situação que merece atenção: os grandes handicaps em festivais como Cheltenham, Aintree ou Royal Ascot. Corridas com vinte ou mais cavalos, odds generosas e quatro posições Place pagas criam o ambiente perfeito para o Each-Way. Não é coincidência que os apostadores profissionais concentram grande parte da sua atividade Each-Way nestas semanas do calendário.
O Each-Way não é um compromisso para quem tem medo de perder. É uma ferramenta de gestão de risco que, usada com disciplina, aumenta a taxa de retorno positivo ao longo de uma temporada. A chave está em não o aplicar indiscriminadamente — quando as condições são erradas, o Each-Way é simplesmente uma forma mais cara de perder. Quando as condições são certas, é uma das apostas mais eficientes nas corridas de cavalos.