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Quando falo em “indústria de corridas de cavalos”, a maioria das pessoas pensa em apostas. Mas as apostas são apenas a camada visível de um ecossistema que abrange criação de cavalos, treino, emprego rural, turismo, veterinária, infraestruturas e até investigação genética. Compreender esta indústria na sua totalidade muda a forma como vemos as corridas — e como interpretamos os mercados de apostas.
A Europa detém 39% do mercado global de corridas de cavalos, liderando a América do Norte (34%) e a Ásia-Pacífico (26%). Esta liderança assenta em dois pilares: a Irlanda e o Reino Unido, que juntos representam a maior concentração de atividade hípica do mundo.
Irlanda: O Modelo de Referência
Suzanne Eade, CEO do Horse Racing Ireland, destacou que os dados de 2025 revelam uma indústria de corridas e criação com desempenho forte, com presença robusta e crescimento em múltiplos hipódromos em todo o país.
A indústria de corridas de cavalos na Irlanda gerou 2,46 mil milhões de euros em 2024, sustentando mais de 30 000 postos de trabalho. Para um país com menos de cinco milhões de habitantes, estes números são extraordinários — equivalem a aproximadamente 1% do PIB e a quase 1% da população ativa empregada direta ou indiretamente pelo setor.
A presença nos hipódromos irlandeses cresceu 6% em 2025, atingindo 1,316 milhões de espectadores em 390 encontros. O valor das vendas de cavalos de raça em leilões públicos chegou a 225,4 milhões de euros, um crescimento de 14% face ao ano anterior. O orçamento de prémios do Horse Racing Ireland para 2026 foi fixado num recorde de 74,7 milhões de euros, um aumento de 4,2 milhões sobre 2025.
O modelo irlandês funciona porque integra todas as componentes da cadeia de valor. O governo financia o HRI (Horse Racing Ireland) através do National Lottery Fund; o HRI investe em prémios, infraestruturas e promoção; os prémios atraem proprietários e cavalos de qualidade; cavalos de qualidade geram apostas; as apostas geram receita fiscal; a receita fiscal retorna ao ciclo. É um ecossistema virtuoso que poucos países conseguiram replicar.
A criação de cavalos é outro pilar. A Irlanda é o maior produtor de cavalos puros-sangues da Europa e um dos maiores do mundo. Os investimentos em instalações de criação, clínicas veterinárias especializadas e centros de treino criam emprego em regiões rurais onde poucas outras indústrias são economicamente viáveis. O impacto social, para além do económico, é significativo.
Reino Unido: Desafios Estruturais
O contraste com o Reino Unido é instrutivo. Enquanto a Irlanda cresce, o Reino Unido enfrenta pressões que ameaçam a sustentabilidade do seu modelo.
A presença nos hipódromos britânicos ultrapassou os cinco milhões em 2025, pela primeira vez desde 2019 — um dado positivo. Os prémios atingiram um recorde de 194,7 milhões de libras. Mas por trás destes números, as correntes são preocupantes. O volume de apostas em corridas caiu 4,3% em 2025 e mais de 10% em dois anos. O número de cavalos em treino desceu para 21 728, uma redução de 2,3%, com projeções de queda de 6-7% até 2027.
A pressão fiscal é uma das causas. O aumento do imposto sobre o jogo para 40% (nas reformas orçamentais recentes) comprimiu as margens dos operadores, que responderam reduzindo o investimento em produtos de margem baixa — e as corridas de cavalos são o produto com maior carga fiscal e menor margem do portfólio dos bookmakers.
O resultado é um ciclo potencialmente vicioso: menos investimento dos bookmakers traduz-se em menos prémios financiados pela indústria de apostas, menos cavalos em treino, menos corridas competitivas e menos atratividade para apostadores. Os dados mais recentes sugerem que este ciclo já está em movimento.
Panorama Continental
Fora do eixo anglo-irlandês, a indústria de corridas europeia tem dinâmicas distintas. A França é o terceiro maior mercado europeu, com um sistema de corridas forte baseado no pari-mutuel (PMU) que gera receita significativa para a indústria. As corridas de trote, praticamente inexistentes no Reino Unido, são populares em França, Itália e nos países nórdicos, ampliando o espectro do desporto.
A Alemanha tem uma tradição hípica histórica mas um setor em declínio há décadas, com hipódromos a fechar e a atividade a concentrar-se em poucos centros. A Itália mantém um programa de corridas ativo, embora reduzido face ao seu pico, com o foco a deslocar-se gradualmente para o trote.
Nos países nórdicos — Suécia, Noruega, Finlândia — o trote é o formato dominante e opera em monopólios estatais de apostas (ATG na Suécia, Rikstoto na Noruega). Estes mercados são relativamente fechados ao apostador internacional, mas representam volumes significativos e uma base de público fiel.
Portugal, como já abordei noutros contextos, é um caso atípico: tradição hípica histórica (os hipódromos de Lisboa e Porto tiveram períodos de atividade intensa no século XX) que se extinguiu quase completamente, sem transição para o mercado de apostas online. O contraste com a Irlanda — um país de dimensão semelhante mas com uma indústria hípica que vale 2,46 mil milhões — é um lembrete do potencial não realizado.
A Espanha merece menção pela proximidade geográfica. O hipódromo de La Zarzuela em Madrid mantém atividade regular, embora modesta em comparação com o circuito britânico ou irlandês. O mercado espanhol de apostas em corridas é pequeno mas existente, servido por operadores internacionais que oferecem mercados hípicos como parte da sua licença de apostas desportivas. Para apostadores portugueses, a corridas espanholas representam uma alternativa acessível em termos de fuso horário e proximidade cultural, embora a profundidade dos mercados seja limitada.
A indústria europeia de corridas está num momento de bifurcação. Os mercados com modelos integrados (Irlanda, França) mostram resiliência e crescimento. Os mercados dependentes de apostas comerciais sem estrutura de financiamento dedicada enfrentam pressão crescente. Para os apostadores, esta dinâmica traduz-se em oportunidades: corridas de qualidade com mercados profundos nos centros fortes, e mercados menos eficientes nos perímetros que podem oferecer value. O guia completo de apostas em corridas de cavalos aborda como navegar este panorama.