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Quando comecei a apostar em corridas britânicas, o turfe era o produto-rei dos bookmakers. Os melhores traders trabalhavam nas corridas, as maiores promoções eram para os festivais hípicos e os dados de corridas dominavam as páginas de apostas. Uma década depois, o panorama é irreconhecível. As corridas de cavalos estão a perder terreno para o futebol, o casino online e os mercados emergentes — e os números contam uma história que a indústria já não pode ignorar.
O volume de apostas em corridas de cavalos no Reino Unido caiu 4,3% em 2025 e mais de 10% em dois anos desde 2023. Não se trata de uma flutuação temporária. É uma tendência estrutural com causas identificáveis e consequências que afetam toda a cadeia, desde os hipódromos até aos apostadores.
Os Números do Declínio
O volume médio de apostas por corrida caiu 8% num ano, 15% em relação a 2022/23 e 19% em relação a 2021/22. O número de cavalos em treino no Reino Unido desceu para 21 728 em 2025, uma redução de 2,3%, com projeções do setor a apontar para uma queda de 6-7% até 2027 face a 2024.
O volume de apostas online em corridas britânicas nos operadores licenciados caiu 1,6 mil milhões de libras em dois anos — três mil milhões quando ajustado pela inflação. Estes não são números abstratos: traduzem-se diretamente em menos receita para a indústria de corridas, menos financiamento para prémios e menos investimento em infraestruturas.
O paradoxo é que outros indicadores são positivos. A presença nos hipódromos ultrapassou os cinco milhões pela primeira vez desde 2019. Os prémios atingiram um recorde de 194,7 milhões de libras. O Levy Board recolheu 108,9 milhões de libras, também um recorde. Como pode a indústria estar simultaneamente em crescimento de público e em declínio de apostas? A resposta está na desconexão entre a experiência nos hipódromos e o comportamento de apostas online.
Causas Estruturais
Nick Mills, CEO da Racecourse Media Group, foi claro: inicialmente algumas pessoas pensaram que as corridas tinham escapado aos efeitos, mas agora é evidente que o setor será afetado pelas consequências orçamentais. Nick Mills referiu-se especificamente ao impacto do aumento fiscal, afirmando que ninguém esperava um imposto de 40% sobre o jogo e que isso representa uma parte enorme da rentabilidade e receita dos bookmakers.
A primeira causa é fiscal. O aumento do imposto sobre o jogo para 40% no orçamento britânico comprimiu dramaticamente as margens dos operadores. As corridas de cavalos já eram o produto com maior carga fiscal (gambling duty + betting levy + responsible gambling levy). Com a nova taxa, as margens tornaram-se negativas ou marginais em muitas corridas, levando os operadores a redirecionar investimento para produtos mais rentáveis.
A segunda causa é a concorrência de outros produtos. O casino online, com margens brutas de 40-60%, e as apostas em futebol, com volumes massivos e menor carga fiscal por aposta, são significativamente mais rentáveis para os operadores. Cada euro investido em promoção de corridas gera menos retorno do que o mesmo euro investido em slots ou futebol. A decisão comercial é previsível.
A terceira causa é a migração para operadores não licenciados. O tráfego de sites ilegais de apostas em corridas cresceu 522% entre 2021 e 2024, enquanto o dos legais cresceu apenas 25%. Os apostadores que migram para operadores ilegais fazem-no por várias razões: odds melhores (porque o operador não paga impostos), ausência de limites de stake e anonimato. Cada apostador que migra representa volume perdido para o mercado regulado e, por extensão, para a indústria de corridas.
A quarta causa, menos discutida mas igualmente relevante, é a mudança geracional. Os apostadores mais jovens cresceram com o futebol e o casino online. As corridas de cavalos exigem conhecimento específico, dedicação analítica e uma curva de aprendizagem que outros produtos não requerem. A barreira de entrada é mais alta, e os operadores investem menos em educar novos apostadores de corridas.
Consequências Para a Indústria
O ciclo é preocupante e já está em movimento. Menos volume de apostas significa menos receita para os operadores, que contribuem menos para o Levy Board. Menos funding do levy significa menos prémios distribuídos aos hipódromos. Menos prémios significam menos cavalos em treino — os proprietários retiram cavalos quando o retorno potencial não justifica os custos de treino e manutenção. Menos cavalos significam campos mais pequenos, corridas menos competitivas e menor atratividade para apostadores. O ciclo fecha-se sobre si próprio.
A projeção de queda de 6-7% no número de cavalos em treino até 2027 é o indicador mais tangível desta espiral. Menos cavalos significam literalmente menos corridas viáveis — um hipódromo que precisa de oito cavalos por corrida e sete corridas por dia depende de um pool de cavalos disponíveis que está a encolher.
Para os apostadores, as consequências são mistas. Por um lado, mercados menos eficientes podem criar mais oportunidades de value — com menos volume e menos atenção dos bookmakers, os erros de preço podem aumentar. Por outro lado, mercados com menos liquidez significam menos opções de apostas, odds menos competitivas e menor cobertura de corridas menores.
O declínio das apostas em corridas no Reino Unido é um caso de estudo em como fatores fiscais, concorrenciais e comportamentais podem convergir para erodir um mercado que durante séculos foi o centro da indústria de apostas. As lições para outros mercados — incluindo Portugal, onde a indústria hípica nunca chegou a florescer no digital — são claras: sem investimento, sem educação e sem sustentabilidade económica, o turfe perde terreno. Para uma análise mais ampla do ecossistema europeu, o artigo sobre a indústria de corridas na Europa contextualiza estas dinâmicas no panorama continental.