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Quando comecei a acompanhar o mercado de jogo online em Portugal, em 2017, era um setor com menos de dois anos de regulamentação e uma receita que parecia modesta em comparação com mercados maduros como o britânico ou o maltês. Sete anos depois, o crescimento foi tão explosivo que até os analistas mais otimistas tiveram de rever as suas projeções. O problema, para quem se interessa por corridas de cavalos, é que todo esse crescimento aconteceu noutras direções.
O mercado de jogo online em Portugal ultrapassou pela primeira vez mil milhões de euros de receita anual em 2024, com um crescimento de 42% face ao ano anterior. É um número impressionante. Mas dentro desse número, as corridas de cavalos são estatisticamente invisíveis.
Os Números do Mercado
O quarto trimestre de 2025 estabeleceu novo recorde: 337,6 milhões de euros de receita bruta de jogo online, um crescimento de 4,5% em relação ao trimestre homólogo e de 13,6% face ao trimestre anterior. O SRIJ publica estes dados trimestralmente, e a tendência tem sido consistentemente ascendente desde 2015.
O número de contas registadas aproximou-se dos cinco milhões no final de 2025. Num país com cerca de dez milhões de habitantes, isto representa uma penetração extraordinária — quase metade da população adulta tem pelo menos uma conta de jogo online registada. Não significa que metade dos adultos jogue regularmente, mas indica que a barreira de entrada foi eliminada para uma grande parte da população.
A segmentação por produto revela onde está o dinheiro. O casino online gera mais de 63% da receita total, com as slots a representar 80% das apostas em casino. As apostas desportivas constituem o segundo segmento, dominado esmagadoramente pelo futebol. O resto — poker online, apostas em eventos não desportivos — ocupa uma posição marginal.
Portugal tem dezoito operadores licenciados com trinta e duas plataformas ativas. Este número tem crescido lentamente, com novos operadores a entrar no mercado à medida que a atratividade da jurisdição aumenta. A regulamentação portuguesa, apesar de inicialmente criticada pela carga fiscal elevada, demonstrou ser um modelo estável que garante proteção ao consumidor e previsibilidade para os operadores.
Futebol vs. Hipismo
Nick Mills, CEO da Racecourse Media Group, comentou que inicialmente alguns pensaram que as corridas tinham escapado às consequências, mas que agora é evidente que o setor será afetado pelas repercussões orçamentais. Esta observação, feita sobre o mercado britânico, aplica-se por extensão à posição das corridas no contexto mais amplo do iGaming — as corridas de cavalos estão a ser comprimidas pela dominância de outros produtos.
O futebol representa 75% de todas as apostas desportivas em Portugal no quarto trimestre de 2025. Esta dominância não é surpreendente — o futebol é o desporto nacional, a Liga portuguesa e as competições europeias geram cobertura mediática constante, e os operadores investem massivamente na promoção de mercados futebolísticos.
As corridas de cavalos, em contraste, não têm base cultural em Portugal. Não há atividade regular nos hipódromos nacionais, não há cobertura mediática, não há tradição de apostas hípicas como existe no Reino Unido, Irlanda, França ou Austrália. Para um operador licenciado em Portugal, investir em mercados de corridas de cavalos é uma decisão com retorno incerto — o público existe, mas é nicho.
A 77% dos jogadores registados em Portugal têm menos de 45 anos, e o segmento 25-34 representa um terço do mercado. Esta demografia é predominantemente orientada para o futebol, eSports e casino — não para as corridas de cavalos. Qualquer estratégia para introduzir o hipismo no mercado português teria de captar um público que, na sua maioria, nunca assistiu a uma corrida.
Existe, contudo, uma oportunidade não explorada. O público português de apostas desportivas é sofisticado — habituado a mercados ao vivo, odds comparativas e apostas múltiplas. Transferir essa sofisticação para as corridas de cavalos, com educação adequada e conteúdo em português, poderia abrir um segmento que nenhum operador está atualmente a servir de forma dedicada.
Perspetivas Para o Futuro
A questão que me fazem frequentemente é: haverá espaço para as apostas hípicas no mercado regulado português? A resposta honesta é que depende de fatores que estão fora do controlo dos apostadores.
Do lado regulatório, a criação de uma categoria específica para apostas em corridas de cavalos dentro do quadro do SRIJ seria o passo mais significativo. Isto exigiria interesse político e pressão de mercado — dois elementos que atualmente não estão presentes em quantidade suficiente. O SRIJ está focado em consolidar e fiscalizar o mercado existente, não em expandir categorias de licença.
Do lado dos operadores, a inclusão de mercados de corridas britânicas e irlandesas na oferta de apostas desportivas é uma decisão comercial que depende da procura. Se um número suficiente de apostadores portugueses demonstrar interesse ativo em corridas de cavalos, os operadores responderão. O mercado é, no final, pragmático.
Do lado dos apostadores, a comunidade portuguesa de turfe existe — é pequena mas dedicada. Apostadores que acompanham as corridas britânicas e irlandesas, que utilizam operadores internacionais e que desenvolveram competências analíticas num contexto que não lhes é culturalmente nativo. Esta comunidade é a semente de qualquer crescimento futuro.
O mercado de iGaming em Portugal tem o enquadramento regulatório, a infraestrutura tecnológica e a base de utilizadores para suportar apostas em corridas de cavalos. O que falta é a ponte entre a oferta e a procura — e essa ponte constrói-se com educação, conteúdo de qualidade e visibilidade. Para uma contextualização mais ampla de como o mercado português se insere no panorama regulatório das apostas hípicas, o guia completo sobre apostas em corridas de cavalos aborda a regulamentação em detalhe.